Publicado em: 08/03/2018 15h59 - Atualizado em 12/03/2018 10h24

De Volta à Prancheta

Leopoldo Anjo desenvolve três projetos de HQs desde que se mudou para a cidade

Fábio Alexandre
"Nunca tive dúvidas do que queria fazer: histórias em quadrinhos". A história de Leopoldo dos Anjos Alves, 39 anos, mais conhecido como Leopoldo Anjo, natural de Santo André e morador de Indaiatuba há cinco anos, revela o potencial de um artista que, como muitos outros, acaba deixando seus sonhos de lado para suprir as obrigações cotidianas. No entanto, ao contrário do que muitas vezes acontece, Leopoldo encontrou o equilíbrio e atualmente, desenvolve três projetos simultâneos de HQs e tem mais uma engatilhada.
"Desenho desde os 3 anos de idade, no caderno de escola do meu pai. Na época, assistia Spectreman na extinta TV Manchete", conta, em entrevista à Tribuna. "Sempre fui muito ligado em desenho animado, mas na minha infância era difícil assistir, pois eles passavam em horários específicos e eu sempre estudei pela manhã. Mas quando conseguia, ficava reproduzindo meus personagens preferidos".
Uma produção, em especial, encantou o ilustrador. "A paixão aflorou mesmo quando Thundercats estreou em 1986 (a animação foi ao ar pela Rede Globo até 1990, quando 100 dos 130 episódios foram exibidos), mas era apenas aos domingos. Foi então que, certo dia, passei em uma banca e vi o gibi dos Thundercats. Desde então, o desenho passou a ficar comigo o tempo todo", recorda. "Depois disso, as duas primeiras HQs que comprei foram uma Superaventuras Marvel com o Justiceiro na capa, e uma edição dos X-Men, com Wolverine em destaque".
Autodidata, Leopoldo foi buscar o aperfeiçoamento. "Foi na oitava série que fiz o meu primeiro curso, algo bem básico: luz, sombra e utilização dos lápis. Foi meu primeiro contato com algo mais teórico, além da oportunidade de conhecer pessoas com o mesmo sonho", aponta. "Minha arte melhorou bastante e então a turma da escola me escolheu para desenhar a camiseta dos formados. A empresa que faria a camiseta gostou do meu trabalho e me contratou. Eu tinha 15 anos e ganhava R$ 40 por desenho, que era uma fortuna na época".
O desafio continuaria. "Minha família é humilde e então precisei trabalhar para viabilizar um novo curso. Durante três anos, fui operador de projeção na rede Cinemark. Foi assim que me inscrevi na Oficina de Arte, em Santo André, onde conheci André Valle, um grande mestre, que me ajudou demais na carreira e serviu como inspiração para que eu me tornasse arte-educador", revela. "A primeira grande proposta veio em 2000 e com apenas 18 anos, eu e um amigo largamos tudo para trabalhar com ilustração. Na Oficina de Arte, virei assistente e depois professor. Também comecei a dar aula em um projeto social de Santo André, onde fiquei por quatro anos".
Atualmente, Leopoldo comanda curso gratuito de história em quadrinhos na SISNI (Sociedade Interativa Sol Nascente de Indaiatuba). "A próxima oficina começa dia 12 de abril e é voltada para maiores de 14 anos. As aulas acontecem às quintas-feiras, das 19h30 às 21h30", lembra. As inscrições acontecem pelo WhatsApp (19) 99603-7064 ou pelo e-mail sisni@sisni.org.br. A entidade fica na Rua Donato de Almeida, 27, no Jardim Primavera. "Nunca quis escolher entre desenhar ou ensinar. Gosto das duas coisas", ressalta o professor.
Em 2006, começou os trabalhos em uma agência de publicidade. "Comecei na Estúdio 6B, que foi parte importante do meu crescimento, pois fui constantemente colocado à prova. Aquilo 'abriu' minha cabeça. Tempos depois, fui trabalhar na Fábrica dos Quadrinhos, onde conheci os Irmãos Piologo, de Indaiatuba. Mas a empresa ficava na Vila Madalena e era longe demais", lembra. "Foi então que comecei a trabalhar com e-learning, ou ensino à distância. Produzia animações em Flash, infográficos, alguns games. Foi assim que fiz a minha vida. Tinha um salário fixo e bons rendimentos. Até 2013, simplesmente abandonei a vida artística".
HQ protagonizada por vampiros deve sair em breve HQ protagonizada por vampiros deve sair em breve (Crédito: Reprodução)
Trabalho envolve diversas proporções e estilos 
variados
Trabalho envolve diversas proporções e estilos variados (Crédito: Fotos: Reprodução)
Depois de quase deixar a carreira, o ilustrador resgatou sonho de infãncia e hoje faz diversos planos Depois de quase deixar a carreira, o ilustrador resgatou sonho de infãncia e hoje faz diversos planos (Crédito: Fábio Alexandre)

Coletânea pode sair ainda em 2018

"Dez anos antes, conheci Indaiatuba através de um amigo que morava aqui e tocava comigo na banda One-Last-Shot. Vinha direto para a cidade. Em 2013, mudei para cá e foi o início de uma crise particular", recorda Leopoldo. "Comecei a trabalhar em casa e nos dois primeiros anos, foi complicado. Para a minha esposa e dois filhos, a mudança foi ótima. Até metade de 2016, não queria mais desenhar e vivia buscando alternativas, executando diversos trabalhos como freelancer".
Buscar ajuda foi fundamental. "Fiz alguns cursos na Quanta e na Pandora, todos na área artística. Foi então que resolvi fazer análise e descobri que, na verdade, fui eu quem deixei de fazer o que realmente queria. Sempre quis fazer isso, desde moleque. Foi então que voltei o foco a este sonho e 2016 passou a ser o ano da mudança", aponta. "No comecinho de 2017, já havia decidido: queria fazer HQ".
Atualmente, possui três projetos em andamento e outro engatilhado para 2019. "Fora o trabalho freelancer, que continuo fazendo, passei a trabalhar forte meu Instagram e uma galera legal começou a seguir e elogiar. Curiosamente, sou fã de Rob Liefeld (criador de Deadpool e um dos ilustradores mais criticados das últimas décadas) e ele curtiu alguns trabalhos meus. Considerei um grande reconhecimento", afirma, sem esconder o sorriso.
"Estou produzindo uma coletânea. Serão 12 ilustradores com tema livre e histórias curtas, de duas a 12 páginas, no máximo. O intuito é trazer alguns amigos de volta para o desenho. Caras que, assim como eu, acabaram abandonando o sonho de infância. Estou fechando os roteiros e quero imprimir até o final do ano", revela. "O segundo projeto envolve vampiros que criei, inspirado em uma campanha de RPG que adorava. Tenho grande carinho por estes personagens. A meta é lançar para a Comic Con Experience (CCXP). Se não der em 2018, fica para 2019".
"Fiz alguns trabalhos para a Sociedade da Virtude (canal no YouTube criado por Ian SBF, um dos fundadores do Porta dos Fundos). Já o terceiro projeto envolve o nome de um roteirista reconhecido, que ainda não posso revelar. Tudo isso é a prova concreta que minhas ações estão tendo resultado. Hoje, trabalho feliz", ressalta. "Durante muito tempo, priorizei as necessidades. A dica é continuar acreditando e trabalhando, mesmo um pouquinho por dia. Em um ano, você vê o resultado. É preciso criar o hábito de trabalhar por você, pelos seus interesses".
Leopoldo lembra: hoje, as oportunidades são maiores. "Existe uma mídia especializada e o quadrinho nacional tem vários selos em diversas vertentes. Hoje, vejo uma facilidade muito maior e a possibilidade real de viver disso", comenta.
Influências
Como artista, suas influências são diversas. "Gosto de pensar que tenho versatilidade. Proporções e estilos diferentes. Jim Lee foi o primeiro artista que realmente notei e criou a identidade dos quadrinhos nos anos 90. Marc Silvestri, Bruce Timm e suas animações, animes (principalmente de Akira), John Buscema e Mike Mignola também são influências", aponta. "Assim como desenhos como Thundercats, He-Man e o Samurai Jack de Genndy Tartakovsky". Entre os brasileiros, seu preferido é Roger Cruz.
Entre os personagens que gostaria de desenhar, aponta duas escolhas interessantes. "Se pudesse escolher um personagem para desenhar, seria o Hellboy. Gosto dos detalhes e o personagem carrega muito disso, é rico e tridimensional. Outro que curto muito é o Cable", lembra.

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