A transsex Lea T. que marcou presença no São Paulo Fashion Week
A São Paulo Fashion Week teve estrelas hollywoodianas de peso, além da sempre bombástica presença de Giselle Bündchen. Mas nenhum deles conseguiu ofuscar a modelo Lea T. (ou Lia ti, como pronunciam na Inglaterra). É uma cara marcante em cima do seu 1,80m. Não é bonita, mas tem presença. Ela ainda é oficialmente Leandro, uma vez que tem o órgão sexual masculino, entretanto, já está na reta final para fazer a cirurgia de troca de sexo. Ela é filha do jogador Toninho Cerezo, que integrou a Seleção Nacional em jogos importantes em Copas Mundiais. E é isso o que mais “pega”.
Quando se sabe de quem é filha todo mundo se encolhe e diz, “justo de quem!”. Cerezo é aquele macho machão. Ter um filho gay, ou homossexual, para esse tipo de pessoa certamente é um terror. Parece que a relação entre os dois é praticamente nenhuma.
Certamente todos os pais e mães prefeririam que seus filhos fossem “normais”. Que, se possível, se casassem e tivessem filhos. Os filhos homens até seriam elogiados se tivessem uma vida sexual bem variada – de mulheres, claro.
Há tamanha carga negativa em ser “diferente”, que não se quer esse terror para seus pimpolhos (os filhos sempre serão vistos como filhos/pimpolhos, não importa a idade). As mães são as primeiras a aceitar um filho/a homossexual. Os pais, se resignam; outros, cortam relações. Será que ser gay deixa de ser filho para um pai? Para alguns, um filho assassino talvez seja mais aceito do que um gay.
Hoje, muitos já saíram do armário e a sociedade os aceita como são. Não gostamos de vê-los se agarrando no escurinho do cinema. Mas ninguém gosta de ver (ou ouvir...) o agarramento de qualquer casal. Isso deveria ser feito num ambiente de intimidade. Para gays e heteros.
Por sorte não tenho filhos gays. Sorte – não tenho vergonha em confessar. Mas jamais deixaria de amar, torcer e proteger um filho se ele tivesse outra orientação sexual. Ficaria chateada e saberia que estariam falando às minhas costas: “Coitada, o fulaninho é gay”. Pois, repito, é isso que falam do Toninho Cerezo: “Justo ele!”.
Nos anos 70 fui a “salvação” de vários amigos que ousavam abrir a porta do armário. Como ia com eles a teatros, concertos e cinemas, os pais pareciam estar aliviados, tipo, “ah, tá vendo, ele não é gay, está namorando a Silvia”, embora nunca déssemos a entender isso. Na faculdade, um aluno, que era funcionário do Banco do Brasil, teve que arranjar correndo uma moça que quisesse casar com ele, pois era o único obstáculo para sua promoção. A moça, homossexual também com a porta do armário aberta, aceitou e o acerto durou por uns bons anos.
Em resumo, Lea T., além do seu exotismo físico (mulata, com rosto angular, pés e mãos grandes) roubou a cena por ser transsexual. E ser filha de um macho man jogador de futebol.
Nordestinos
A polêmica sobre “racismo” contra nordestinos voltou à baila (embora nunca tenha saído...) com frases agressivas assinadas em rede social na web por uma estudante de Direito paulista, logo após a eleição de Dilma Rousseff. Ela argumenta que a vitória da candidata se deveu porque quase todos os nordestinos teriam votado na “candidata do Lula”.
O auê na mídia é em relação ao preconceito. Mas dá para enquadrar o fato em crime de racismo? Um racismo geográfico?! Mas dá para qualificar criminalmente a estudante, já que ela sugeriu “afogar” nordestinos. Ou seja, teria incitado homicídios.
A birra contra nordestinos é antiga, mas é mais forte em São Paulo. Quando saí do Rio e vim morar em Indaiatuba (ou no Estado de São Paulo), notei que paulistas de classe média e alta são mais antinordestinos do que os de minha cidade natal.
É importante ressaltar que houve quatro grandes “diásporas” de imigrantes nordestinos ao longo do século 20. Em massa, boa parte migrou para a Amazônia para trabalhar no ciclo da borracha. Nos anos 40, outra leva chegou ao norte do Paraná e, nos anos 60/70, aportaram no Rio e em São Paulo. A mais marcante, talvez, tenha sido a que levou milhares de nordestinos para construir a nova capital do Brasil. São os candangos, que acabaram fincando raízes em Brasília.
O Nordeste tem ainda seus “coronéis”, o que acarreta em mais pobreza e falta de educação escolar nos mais humildes. E, sim, para os nordestinos a ajuda tipo Bolsa Família (ou que nome tenha) é importantíssima
Por que tanto preconceito? Será que é pela falta de real proporcionalidade dos Estados no Congresso? São Paulo teria mais peso e deveria ter mais representantes? Bom, de fato há algo errado na representatividade. Isso foi obra da ditadura militar, que queria assegurar deputados e senadores “fiéis” e decidiram que a Câmara dos Deputados teria representantes por Estado e não pelo número de eleitores. Em tese, e apenas em tese, esses representantes do Nordeste serviriam como vaquinhas de presépio. Só que não contavam que os estados nordestinos também elegeram grandes nomes que ajudaram a derrubar a ditadura anos mais tarde.
Preconceitos
Preconceitos existem, embora velados. Não adianta, pois as pessoas costumam separar, qualificar, tachar. Aqui em Indaiatuba havia um preconceito social que apontava a linha do trem como separador de classes. Alguém que morasse “do lado de lá”, seria social e culturalmente inferior. Uma tremenda estupidez. Quando perguntei onde ficava tal rua, me responderam, “ah, é ali no bairro”. Como assim?! Só vim a entender depois. Ainda bem que esse preconceito foi superado.
Apartheid
E o que dizer do bullying? É também preconceito. Mas esse traumatiza, e muito. O que é preciso para mitigar preconceitos propiciar a uma nova geração conceitos pautados por valores éticos e morais. Parece balela, fala de político até. Mas só incutindo numa criança essa visão é que será possível evitar preconceitos tão imbecis.