Desapegar-se é desprender-se. Soltar-se. Cortar os liames que mantêm as ligações. Desvincular-se da prática do amor excessivo, que impede a movimentação natural dos seres ou das coisas. Isso mesmo. Quando se exerce uma manifestação de amor excessiva, torna-se um querer possessivo. Quando exaltamos a posse, tudo se torna um risco e quando nossa atenção se volta para os riscos, nada mais se estabelece com segurança.
Um dos aspectos interessantes de se refletir em relação ao desapego é que tudo em nossas vidas possui um tempo. Nossa vida é composta por ciclos. Todo ciclo possui início, meio e fim. O apego é a tentativa de perpetuar o que já acabou. Portanto, o desapego é a chave de encerramento de uma etapa e simultaneamente de abertura da etapa que vai se iniciar.
Há uma brincadeira que diz que relacionamentos possuem datas de validade. A vida demonstra que relações chegam ao fim e que se tentar prolongar, tudo irá piorar. A data de validade venceu. Mas há relações cuja data é indeterminada, embora uma grande maioria não acredite nisso. Existe sim.
O homem primitivo caminhava. Mudava-se de lugar para lugar tão logo percebesse a diminuição da alimentação, fosse caça, fosse vegetais, fosse pesca. Deixava tudo para traz, sem o mínimo pudor, sem o mínimo receio, não carregava consigo nada além do que seria utilizado no percurso, nada além de sua clava, pedaço de pau que servia como arma para caçar sua alimentação imediata. Não existia o sentimento de perda, pois não havia o sentimento de posse. Saía de uma caverna sem se preocupar se acharia outra. Ele se bastava para fazer novos lugares para dormir.
Apenas com o processo evolutivo é que o homem foi juntando tralhas, que significam cacarecos, trastes velhos e de pouco valor. Pois é nesse ponto que o sentimento de posse se estabelece e está criado o apego. Desenvolveu-se o medo das perdas.
Tudo o que se possui, do menor objeto ao maior patrimônio material nada mais é do que tralha quando se depara com a própria essência: o espírito, o tudo que permanece infinitamente.
O pai de família que não sai de férias porque não pode deixar sua função por alguns dias, até que sofre uma doença ameaçadora e se dá conta que valorizou coisas inadequadas, desapega-se então do trabalho e se permite desfrutar com sua família de momentos que antes considerava perda de tempo. Não significa que se tornou irresponsável, mas sim que passou a atribuir os pesos adequados a cada situação que vive.
O relacionamento que chegou ao fim, a separação oficial ocorreu, mas para um deles a relação ainda não foi rompida. Sofrimento para quem está apegado e tormento para o outro. Com o tempo, o outro consegue não mais sofrer as influências do primeiro, mas este continua a sofrer. E sofre muito. Vejam quantas pessoas se mantêm apegadas a relações que já acabaram há muito e continuam sofrendo, pessoas amargas e sem sabor de vida.
O trabalho que está custando mais do que se está ganhando, mas o apego ao que se acredita que só ele pode proporcionar ajuda a manter a infelicidade presente, em nome do tenho responsabilidades; “Não posso diminuir meu padrão de vida”; “Não posso arriscar” e muitos outros argumentos. A falta do desapego é tão forte que a pessoa transforma todos esses argumentos em realidade: a sua realidade. Quando a pessoa entra de olhos fechados em um ambiente, no máximo perceberá uma variação luminosa, mas não verá luz e nem identificará formas. Ela está dando razão à sua falta de razão.
Tenho constatado que o desapego facilita nossa vida em tudo. O mais satisfatório é a diminuição da presença do que chamamos de ego. Consequentemente, redução automática e significativa do orgulho, ampliando o espaço de consciência e compreensão do que realmente nos é importante nesta existência. Desapego favorece o desprendimento, condição do perdão, facilitando não mais carregar tralhas em nossas vidas. Tudo fica mais leve.