A colocação tinha sido: “Me dê uma palavra que transformarei em artigo”. A palavra foi felicidade. Sugestão dada, desafio assumido. A pessoa o fez ironicamente, pois estava irritada com a o intenso barulho de marteladas dadas por pedreiros, que há dias estavam reformando o apartamento acima do seu. Estavam removendo tudo, azulejos, pisos, peças instaladas. Realmente o barulho era irritante. Aliviou dizendo: “Dá pra ser feliz?”
A referência expressava a falta de condições externas para que ela pudesse ficar em paz. As batidas, muitas vezes após uma pausa, causavam um sobressalto que não havia como evitar o susto. É difícil sentir paz quando o meio em que se encontra não o possibilita.
Nasceu o artigo!
Quantas pessoas dizem estar buscando a paz, mas agem e permanecem em condições onde ela é, no mínimo, impraticável, para não dizer impossível. Em uma data onde se fala em renovações, o que realmente está sendo feito para a redução das ansiedades, dos temores, dos sobressaltos?
É sabido que para se realizar uma meditação, se fazer uma oração, é necessário antes de qualquer coisa, aquietar a mente. Vamos falar dos dois tipos de barulho que fazemos existir.
O primeiro é o externo, sons reais e que nem sempre podemos intervir. As batidas da reforma são um exemplo típico. Estar em ambientes próximos a ruas e avenidas muito movimentadas é outro. Vocês já viram quantas pessoas colocam músicas agressivas e em alto volume, dizendo que estão querendo se acalmar? Alguns alegam que é para descarregar as energias. De fato é como querer apagar o fogo jogando gasolina sobre ele. Há muitas recomendações para que se busque lugares sossegados, calmos, jardins ou parques, de preferência com uma bela paisagem, pois contemplar a natureza tem sobre as pessoas um efeito tranquilizador.
O segundo tipo de barulho são os internos. Os pensamentos inquietantes e turbulentos. Medos, receios e emoções negativas e alimentadas pelo não querer se desprender do que se está sentindo. Ficam remoendo magoas, ressentimentos, tristezas. Estes podem se transformar nos piores, pois se as pessoas não se dispuserem realmente a interrompê-los, não adianta nada mudarem de lugar. O Barulho vai junto, pois como disse, está dentro.
Muitos pregadores alardeiam o fim dos tempos. Pois então façam que seja o fim dos transtornos e desesperos, das dores e inquietudes, das insatisfações que têm se arrastado ano após ano. Acredito que o mundo não vai acabar. Mas acredito também que estamos vivendo um grande e forte movimento de transformação, momento de transição para uma nova formatação em nossa forma de viver, como já ocorreram em épocas passadas.
Aproveitar o “Ano-Novo, vida nova” para perceber que todos os dias do ano nos dão uma vida nova e insistimos no velho. Entre as mesmas pessoas, mesmos locais, ter a disposição de uma nova vida. Uma nova vida se faz com a reformulação dos conceitos internos.
Como se pode ter felicidade com tantos barulhos existindo? Reduzindo-os ao máximo que se puder, de tal forma que o que sobrar realmente procedem e serão então tratados com a atenção e objetividade que merecem.
Os pedreiros ainda terão mais dias de batida? Usar protetores auriculares diminui o impacto do som. Nossos ruídos internos além de altos estão durando muito? Aquietar a mente, condição primeira para poder despir-se das ansiedades, para poder olhar de frente os medos, parar de cultivar a emoções negativas, que só nos fazem sofrer.
Há situações que não podem ser evitadas. Doenças, vícios, falta de dinheiro gerando dívidas e muitas outras. Ser feliz não é não ter empecilhos em nosso caminho, mas a nossa disposição para enfrentá-los e superá-los.
Quando o exercício do aquietamento interno estiver incorporado, mesmo no meio dos maiores tumultos momentos de paz se fazem presentes. Momentos que nos dão uma grande felicidade.