Natale Felipe estava desde outubro no Lar de Velhos Emmanuel, com saúde debilitada
Eduardo TuratiPaulo estava morando no Lar de Velhos Emmanuel desde outubro do ano passado
Indaiatuba não verá mais aquela figura simples, carismática, irreverente, que portava ininterruptamente um sorriso largo no rosto carregado pelas marcas do tempo e ostentava, orgulhoso, a camisa do Palmeiras. Chegou ao fim a trajetória de Natale Felipe, o Paulo Borges, uma dos mais conhecidos personagens da cidade. Ele morreu na sexta-feira, dia 4, às 4h30, aos 59 anos de idade, vítima de uma pneumonia. Paulo estava morando no Lar de Velhos Emmanuel desde outubro do ano passado, com a saúde bastante fragilizada.
A presidente do Lar de Velhos Emmanuel, Izildinha Cardoso Lopes, conta que Paulo Borges apresentava uma leve melhora desde outubro, quando passou a morar na entidade. “No início ele não andava, vivia em cima da cadeira de rodas. Recentemente ele passou a caminhar, mas continuava quieto, não falava com ninguém, apenas esboçava sorrisos”, cita.
Izildinha conta que Paulo Borges estava dormindo quando começou a respirar mais ofegante. As enfermeiras de plantão da ala masculina começaram o procedimento de oxigenação imediatamente, mas Natale não resistiu e faleceu na cama, dormindo. A Funerária Mattioni se encarregou de buscar o corpo no Lar de Velhos Emmanuel.
Nascido em 24 de dezembro de 1951, em Elias Fausto, Natale Felipe vinha há meses lutando contra o que contribuiu para que ele se tornasse uma figura conhecida por toda a cidade: o alcoolismo. Há tempos Paulo Borges não era mais a lenda que ele mesmo eternizou. Apresentava-se um homem desgastado pelos problemas que enfrentou na vida, com a saúde e mente frágeis e sem condições de diálogo.
História
Natale era palmeirense fanático, mas nunca jogou futebol na Sociedade Esportiva Palmeiras. Porém, já vestiu a camisa do Esporte Clube Primavera no final da década de 60 e início dos anos 70. O “apelido” veio da semelhança com o verdadeiro Paulo Borges, ex-ponta-direita do Corinthians, Bangú e que também teve passagem pelo Palmeiras, nas décadas de 60 e 70. Na época do colégio, era aluno exemplar, com as melhores notas da sala. Natale trabalhou em empresas como Clark e Singer.
Ficou conhecido em Indaiatuba devido a sua presença nos jogos do Primavera no estádio Ítalo Mario Limongi, o Gigante da Vila. Mas não apenas por isso. Sua popularidade deve-se também à simpatia, bom relacionamento com os amigos e pelo gosto pelas bebidas, principal agente do sofrimento dos últimos tempos. A fama de Paulo Borges alcançou os limites da internet, com comunidades e até perfil próprio em sites de relacionamento e redes sociais.
Com sua morte, a própria internet foi o principal veículo de informação e interação dos indaiatubanos. Mensagens pipocaram em todas as redes sociais, como Twitter, Facebook e Orkut. O grupo Indaiá-Dinossauros, do Facebook, foi um dos primeiros que comentaram a morte da figura indaiatubana, com seus membros postando fotos e relembrando momentos que passaram próximos da personalidade local.
Eduardo TuratiFamiliares e amigos prestaram as últimas homenagens durante sepultamento, que aconteceu hoje à tarde
Amigos relatam lembranças de ícone
Natale Felipe foi velado na tarde de ontem, dia 4, no Cemitério Jardim Memorial, e sepultado às 16h30 do mesmo dia, no Cemitério Municipal Parque dos Indaiás. Familiares e amigos do ícone local compareceram ao velório para dar seu último adeus a Paulo Borges e lembraram da figura alegre que circulava pelas ruas de Indaiatuba.
O padre Francisco de Paula Cabral Vasconcelos, o padre Xico, que fez uma oração no velório, lembrou dos episódios vividos juntamente com o ilustre morador em Indaiatuba. “Paulo representava a inconveniência que a vida pode nos trazer, devido ao alcoolismo, mas ao mesmo tempo, mostrava a pureza, a sinceridade e a amizade do ser humano”, cita. “Lembro quando ele interrompia minhas missas para brincar comigo por causa do futebol.”
A presidente do Lar de Velhos Emmanuel, Izildinha Cardoso Lopes, conta que a passagem de Paulo Borges pela entidade deixou uma lição. “O Paulo era aquela pessoa que, apesar de todo o sofrimento pelo qual passou, sempre trazia serenidade no semblante, ele passava isso para todos que o cercavam e isso vamos levar dele”, comenta.
Segundo o comerciante Cacildo Moretti, vizinho há 37 anos, Paulo Borges era muito querido por todos. “Ele tratava todos de uma forma muito gentil e é realmente penoso ver como a vida tratou de trilhar seu caminho”, observa.
Infância
Conhecendo Paulo Borges desde a infância, ainda em Elias Fausto, Antônio Moreira, o Barrinha, de 67 anos, lembra dos tempos em que ele, Paulo e os irmãos, ajudavam a família nas plantações de tomate. “Desde aquela época era uma pessoa muito boa, muito companheira, de família humilde. Vai deixar saudades, com certeza”, emociona-se.
A irmã de Paulo Borges, a dona de casa Maria Rita Felipe, de 71 anos, ressalta que, apesar dos últimos anos difíceis, a lembrança que o irmão deixa é de alegria. “Os últimos anos não foram fáceis, ele deu muito trabalho, principalmente com a bebida, mas foi uma pessoa alegre. O que vai ficar na memória é o sorriso dele”, diz.
Tribuna acompanhou o drama dos últimos meses
Em julho do ano passado, um boato de que Paulo Borges havia morrido corria a cidade e chegou até a Tribuna através de telefonemas. Com o endereço de Natale Felipe em mãos, a reportagem encontrou uma figura que já apresentava, havia três meses, distúrbios psicológicos que o levaram a ter acompanhamento e tratamento do Cen- tro de Apoio Psicossocial (Caps) da Prefeitura. Ele também chegou a ser encaminhado para o Instituto de Reabilitação e Prevenção em Saúde Indaiá, o famoso “Telhadão”, onde teve um quadro de surto psicótico. Antes disso, Paulo Borges havia sido internado no Hospital Augusto de Oliveira Camargo (Haoc), durante nove dias, tratando da pneumonia que o acometia.
Neste encontro, Paulo Borges já mostrava-se mais magro do que de costume, debilitado física e mentalmente, pouco lúcido e reclamando de dores abdominais. A reportagem o colocou no carro da Tribuna e o levou ao pronto-socorro do Haoc. No hospital, Paulo Borges foi medicado e liberado.
Em outubro de 2010, o jornal voltou a encontrar Paulo Borges, desta vez no Lar de Velhos
Emmanuel. Ele continuava com a saúde frágil e apresentando quadro de depressão. Sem conseguir andar devido à fraqueza, o mais conhecido palmeirense da cidade se locomovia com uma cadeira de rodas empurrada pelas enfermeiras e pouco falava. Paulo Borges expressava seus sentimentos através do olhar e do sorriso.